CONEXÃO RONDONÓPOLIS|: Assessor político era peça em engrenagem de lavagem de dinheiro do crime

DA REDAÇÃO:LEIAMT

Um esquema sofisticado de lavagem de dinheiro e agiotagem, operado por uma das maiores facções criminosas do país, foi desmantelado nesta terça-feira (30) pela Polícia Civil de Mato Grosso. A quinta fase da “Operação Eclipse” não apenas expôs a estrutura financeira do grupo, que se estendia por Rondonópolis, Água Boa e Barra do Garças, mas também revelou uma incômoda conexão com o poder político: entre os seis presos na ação, está um assessor parlamentar da Câmara de Vereadores de Rondonópolis.

A prisão do assessor, cuja identidade ainda é mantida em sigilo para não atrapalhar as investigações, lança uma sombra sobre o legislativo da maior cidade do interior do estado e evidencia a infiltração do crime organizado em esferas institucionais.

Procurada, a assessoria da Câmara de Rondonópolis informou que aguarda a notificação oficial para tomar as medidas administrativas cabíveis e que “não compactua com qualquer ato ilícito”.

A operação, coordenada pela Delegacia de Água Boa, cumpriu 18 ordens judiciais, incluindo sete mandados de prisão preventiva e o bloqueio de contas bancárias.

Segundo as investigações, o grupo criminoso utilizava uma empresa de fachada, a “Vale Crédito”, para dissimular a origem de dinheiro proveniente, principalmente, do tráfico de drogas.

As vítimas: Comerciantes presos em dívidas impagáveis

Sob a aparência de uma empresa de factoring, a “Vale Crédito” oferecia empréstimos rápidos e sem burocracia a pequenos e médios comerciantes locais, que muitas vezes enfrentam dificuldades para obter crédito em instituições financeiras tradicionais. No entanto, por trás da fachada de ajuda, escondia-se um esquema predatório de agiotagem.

Um empresário de Água Boa, que concordou em falar sob condição de anonimato, relatou o modus operandi.

“Eles aparecem como salvadores, oferecendo dinheiro na hora. Peguei R$ 10 mil para repor meu estoque. Em poucos meses, com os juros que eles cobravam, minha dívida já passava de R$ 40 mil.
A cobrança era intimidadora, eles deixavam claro quem eram e o que aconteceria se eu não pagasse”, conta a vítima.

De acordo com o delegado responsável pela operação, Bruno Gomes, este era o método usado para lavar o dinheiro ilícito e, ao mesmo tempo, gerar mais lucro para a facção.

“Essa investigação busca ir no eixo central que mantém esses grupos criminosos, que é a parte financeira.
Nossa investigação apurou que uma parte do grupo agia emprestando dinheiro nas praças, inclusive para comerciantes”, explicou.

O dinheiro sujo do tráfico era “esquentado” ao ser inserido no comércio local através desses empréstimos. Os valores eram então pulverizados em contas de laranjas para dificultar o rastreamento e retornar à facção com aparência de legalidade.

A Estrutura e o Alcance do Esquema

A investigação, que já dura mais de um ano e resultou em outras quatro fases, mapeou uma rede complexa com divisão clara de tarefas. Enquanto alguns membros eram responsáveis pela captação de “clientes” para os empréstimos, outros cuidavam da cobrança e da complexa engenharia financeira para ocultar os valores. A operação clandestina não possuía qualquer registro formal.

A escolha das cidades não foi aleatória. Rondonópolis, no sul do estado, Água Boa e Barra do Garças, no Vale do Araguaia, são polos econômicos e logísticos importantes, o que as torna estratégicas para as atividades do crime organizado.

A ação desta terça-feira mobilizou cerca de 60 policiais civis e contou com o apoio de unidades de elite como a Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core) e o Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer).

Além das prisões, foram apreendidos uma quantia significativa de dinheiro em espécie, livros-caixa com a contabilidade do crime, celulares e computadores.

“O propósito é ‘quebrar’ esse braço da facção”, completou o delegado Bruno Gomes.

Para analistas de segurança pública, operações que miram a descapitalização dos grupos criminosos são consideradas as mais eficazes no combate ao crime organizado a longo prazo, pois atacam a capacidade de expansão, compra de armas e corrupção de agentes públicos.

O material apreendido agora passará por perícia, e a expectativa é que a análise dos dados revele a dimensão total do esquema, o valor exato lavado e a possível participação de mais pessoas, incluindo outros agentes públicos.

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